quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Amor Não É Concerteza!

'Que fim de semana maravilhoso, este!', pensava Marília enquanto tomava banho. Há muito que ela e João não tinham um fim de semana só os dois, sem pais, sem irmão e, sem amigos... só eles e... o Bono, o cão... sim esse tinha de estar sempre presente! Desde que o ganharam de presente de casamento, os três tornaram-se inseparáveis, ela, o João e o Bono!
O Alentejo é, sem dúvidas o melhor lugar do mundo para namorar, descansar, passear,... não fazer nada! Até o Bono se divertiu à brava a correr quem nem um doido atrás de tudo e de nada!
João já dorme. O Bono, esse nem se fala... até ressona, está feliz.. ela sabe, quando ele dorme com uma orelha para trás e outra para a frente, está feliz, num daqueles sonos profundos...pode cair a casa... nem dono, nem cão acordam, hoje!
Ainda embalada pelas recordações do fim de semana, sai do banho com um sorriso nos lábios, pega no toalhão, seca-se, veste o robe, quando de repente um grito atravessa a porta do apartamento...
Assusta-se, larga as tiras do robe, que ainda não estavam unidas e, por momentos fica hirta, em estado de choque!
O relógio da sala, herança da avó, bate as 11 badaladas, enquanto Marília se recompõe, volta a pegar nas pontas do robe, e agora, ao som de gritos e gemidos, o seu pensamento vai para a vizinha do quinto esquerdo.
'Se eu contasse, ninguém acreditava!', pensa ela.
No quinto esquerdo, vive um casal de arquitectos, que já vivia no prédio quando ela e João foram para lá viver. Sempre que se cruzava com eles na garagem, no elevador, no átrio do prédio, pareciam o casal mais apaixonado do mundo, sempre abraçados, a trocar carícias... alheios a tudo e todos... até fazia inveja! Marília costumava comentar com João, em tom de brincadeira: 'Porque é que nós não somos assim? Porque não me dás beijinhos no elevador?', ao que João respondia, com aquele ar dele de durão: 'Em casa deve-lhe dar tareias de meia noite... é sempre assim!'. Marília achava imensa piada a esta reacção do João e sempre que via os vizinhos aos beijos lá dizia ela: 'João, porque não somos assim?' Ele olhava para ela pelo canto do olho e no meio de gargalhada, era ela que respondia: ' Já sei, em casa leva tareia de meia noite!' Enquanto isso, ele encolhia os ombros e não dizia nada. Afinal, ela não desejava a vida de ninguém, muito menos trocar o seu amor por outro... tinha o que queria e sempre desejara...

Viviam eles há cerca de três meses no prédio, quando a teoria de João se confirmou: um certo dia, estavam eles a jantar, quando ouviram a vizinha gritar. Os gritos continuaram e, sem saberem o que fazer, Marília foi bater à porta da Sra Regina, a porteira:'D. Regina, vá ver o que se passa no quinto esquerdo, pode ter acontecido alguma coisa, a vizinha não pára de gritar!, disse Marília em estado de choque. 'oh menina Marília, não se preocupe, isto é costume! Até estou admirada, há mais de mês que eles não se pegavam!' 'Uma vez chamamos a polícia e nós é que ficamos mal! A polícia foi lá bater, ele abriu a porta e conseguiu enganar o polícia... disse que não era nada, que estavam a ver um filme de terror e que a mulher estava assustada e tinha gritado! E não é que o polícia acreditou?! No dia seguinte, já andavam aos beijos aí pelo prédio, ela de óculos escuros e com um pulso ligado... como se nada fosse!
Depois desta, muitos mais episódios destes se sucederam: gritos, gemidos à noite e olhos negros com beijos e braços de dia!
Como pode ser possível, em pleno século XXI?
Por mais vezes que acontecesse, por muitas vezes que ouvisse os gritos e gemidos da vizinha, Marília não deixava nunca de se incomodar e sentir uma covarde por não fazer nada! E de pensar: 'O que faz uma mulher a viver assim? Amor não é concerteza!'


(este post é para participar na Fábrica de Histórias. A ver vamos!)

3 comentários:

Alberto Velez Grilo disse...

Muito bem ;)

Se entrar avise, para eu seguir o outro blogue :)

Reflexos disse...

Pode participar quem quiser.
O bologue é:
http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/

Raquel disse...

Uma historia ficcionada mas tão real ao mesmo tempo.Gostei!