terça-feira, 18 de novembro de 2008

Pela Liberdade

Porto, 10 de Abril de 1973


Camaradas,

Quando lerem esta carta, a tudo correr bem, já não farei parte do vosso mundo, pois escrever esta carta será a última coisa que farei antes de partir para o desconhecido.
Serve esta, e porque continuo a acreditar no Homem, apesar de todas as atrocidades que ele comete contra o semelhante; para vos pedir o vosso perdão. Só assim terei paz no sitio para onde vou...
Como sabem, acabei de sair do Tarrafal, lá sofri, sofri muito. Fui torturado de várias formas, passei fome, estive na solitárias várias vezes... resisti a tudo, menos a saber que a minha mulher, a mãe do meu filho, que ainda estava no seu ventre, havia sido apanhada e estava a ser alvo de torturas!
Eles sabiam, sabiam qual era o meu ponto fraco, e num dia em que a Rosa tentou visitar-me, foi presa e torturada, apesar da sua gravidez de sete meses!
Trouxeram-me fotos dela, maltratada e disseram-me que seria pior se eu não confessasse. Perdoem-me, mas pelo nosso filho, que ao contrário de mim e da Rosa, não escolheu esta vida, eu tive de confessar... era esse o passaporte para o direito dele a nascer!
Fui eu que denunciei o esconderijo dos camaradas Rudolfo e Luísa. Fui eu quem lhes deu os nomes dos camaradas que organizaram a greve da empresa onde eu trabalhava e, fui eu também, quem disse onde estava escondido o camarada Tiago Mendes!
Com estas confissões, consegui a libertação da Rosa e garantir que o meu filho nascesse fora da cadeia. Provavelmente, fiz com que ele demorasse mais a viver num país em liberdade, pois reconheço que fiz com que uma célula importante do partido fosse desmantelada, provocando também a fragilização e recuos de muitas outras!
Peço-vos mais uma vez o vosso perdão, mas foi o desespero de um pai a agir...
Não mereço viver, sou um traidor e a minha punição será a de me privar de ver o meu filho crescer.
Acredito que um dia o meu filho vai ter o aquilo por que eu lutei e vocês continuam a lutar: Liberdade.
Por favor, façam isso por ele!

Assinado:Álvaro Gomes

Nota: esta história é pura ficção, escrita para a Fábrica de Histórias

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