segunda-feira, 20 de abril de 2009

Quanto Custa a Liberdade


Estamos na semana em que se comemoram 35 anos da Revolução dos Cravos.

Foi o acontecimento mais marcante, para não dizer mais importante, das últimas décadas da História de Portugal.


Era muito pequena, em 74, mas lembro-me perfeitamente desse dia e de muitas das transformações na nossa sociedade depois dessa data.


Eu e os meus Pais vivíamos num prédio de 3 andares onde viviamos seis famílias. De algumas já falei, das outras hei-de falar. Era um prédio muito 'suis generis', digamos assim.

Nós vivíamos no terceiro esquerdo. Meu Pai, tal como os vizinhos do segundo esquerdo, eram funcionários da EFACEC. Tínhamos uma vida igual à de tantas outras famílias: o meu Pai saía de manhã para o emprego, a minha Mãe também tinha a vida dela, ora em casa a tomar conta de mim, ora a trabalhar. Os vizinhos do segundo esquerdo eram os dois colegas do meu Pai e tinham mesma vida dentro da normalidade que a minha família.

Fazíamos parte de uma classe, que na altura não era conhecida como tal, mas que hoje em dia se chamaria da 'classe média'. Vivíamos desafogadamente, sem sermos ricos e já tínhamos carro, coisa menos comum na época. O meu Pai, sempre grande amante de carros, tinha um Vauxhall Viva vermelho, que era o seu orgulho. Tinha sido o primeiro carro daquele modelo a circular em Portugal! O vizinho, esse homem mais desprendido dessas coisas e mais ligado a questões do intelecto, tinha um Carocha , que comprara em segunda mão depois de várias tentativas para tirara a carta de condução. Formas diferentes de estar na vida, mas que se cruzavam em muitos aspectos sociais, chamemos-lhe assim e que se descobriram mais tarde.

Quanto ao vizinho do primeiro andar, esse tinha como profissão conhecida, a de radio telegrafista e a esposa trabalhava no posto de saúde da freguesia. Tinham dois filhos e eram pessoas pouco sociaveis a quem as pessoas do prédio não davam grande confiança... nem mesmo as crianças brincavam connosco, mesmo frequentando o mesmo colégio do rapaz do segundo esquerdo.


Lembro-me de alguns episódios, infelizes, entre eles e nós e os vizinhos do segundo esquerdo, em que, apesar da minha tenra idade, mas conhecedora do carácter dos meus pais, fiquei admirada com a reacção deles.

Um belo dia, o senhor do primeiro andar decidiu, sem qualquer motivo aparente, colocar-se em cima de um escadote e, com uma tesoura, corta a cordas do estendal, que estava cheio de roupa, da vizinha do segundo andar. No final ainda se riu a boas gargalhadas na cara da vizinha. Nada foi feito! Estranho...

De uma outra vez mandaram a polícia a minha casa, alegando que a minha Mãe tinha a roupa a pingar para o pátio deles e os meninos, que estavam a brincar, apanhavam com as pingas. A minha Mãe, filha de um agente da autoridade, e conhecedora desde sempre dos seus direitos e deveres, fez alguma frente aos senhores agentes da GNR e não os deixou entrar em nossa casa. Foi complicado, pois queriam que ela os acompanhasse ao posto por desautorizar a autoridade. Só depois de ela ter usado o trunfo do nome de família, eles desistiram da ideia. Não satisfeitos, os vizinhos, viraram-se para o senhoria o obrigaram-no a fazer um coberto no pátio.


As coisas mudaram muito para essa família depois do dia 25 de Abril de 1974 e muita coisa ficou explicada. O senhor, que eu não me lembro do nome, era sim radio telegrafista, mas na PIDE, daí o meu Pai e o vizinho não lhe fazerem grande frente. As causas que eles defendiam, que vim mais tarde também a saber, precisavam mais deles cá fora do que presos na PIDE por um motivo menos: um estendal ou meia dúzia de pingas no pátio.


Pois, esse senhor, tal como muitos agentes desta polícia foram presos e foi ver a mulher, de cara em baixo, a tomar conta dos filhos e, imagem deprimente, tenho-a eu essa presente, era a dela aos Sábados à tarde carregada de sacos à espera do autocarro para ir visitar o marido à prisão!


Os meus Pais e os vizinhos, esses, ficaram livres, livres para viver as suas causas, que até então as viviam na clandestinidade, de uma forma muito discreta. Apesar disso, descobri mais tarde que as 'suecadas' em minha casa e na do vizinho até altas horas da noite não eram mais que reuniões políticas. O baralho das cartas era o álibi e as cartas estavam sempre espalhadas na mesa como se de uma suecadas se tratasse!


Postos a publico os ficheiros da dita polícia, o meu Pai veio a descobrir que estava referenciado como comunista. Como não tinham qualquer outras justificação... era porque tinha um carro vermelho! O vizinho, esse, recebeu, faz hoje 35 anos, uma carta para no dia 25 de Abril ir à dita polícia depor!


Bom, nem um nem outro eram santos, no que respeita à luta contra o 'Estado Novo', mas eram pessoas respeitadoras e nem sempre eram respeitadas por estas pessoas, que apesar das suspeitas, eram mesquinhas!


Claro que depois disto, o homem do primeiro andar ficou conhecido como o 'PIDE'. Nunca ninguém o tratou na mesma moedas. Simplesmente, deixaram-no viver a vida dele. Agora a adrenalina do meu Pai e do vizinho era a política a liberdade... o homem mais tarde ou mais cedo seria vitima do seu próprio veneno.

Se foi ou não, não sei. Quando saiu da cadeia, empregou-se como contabilista e alguns meses depois foram embora do prédio. Nunca mais o vi...

3 comentários:

:) disse...

Também tenho uma história engraçada na minha família... um dia, com mais calma, conto-te :)
Eu nasci umas semanas antes do 25 de Abril, pelo que tenho a idade da Revolução. E sinto que a Liberdade é um género de "nome do meio". Talvez por isso esteja sempre a defendê-la.
E como a minha avó sempre me ensinou, máxima responsabilidade para a máxima liberdade :)

:) disse...

Obrigada pelo apoio lá no meu blog :)

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Ano passado também contei a minha história e a história do meu avô. É bom termos estas memórias!