quinta-feira, 23 de abril de 2009

Quanto Custa a Liberdade:Eleições


'O Papá?', perguntei naquele Domingo quando acordei.

'O Papá hoje teve de ir trabalhar', foi a resposta da minha Mãe.

Não gostei da ideia, até porque o Domingo de manhã era nosso, meu e dele. Enquanto a minha Mãe ficava em casa a tratar do almoço, íamos passear, tirar fotografias, à praia, andar de comboio, ver sessões de quadros... era nosso, o Domingo de manhã.

Saímos as duas. Pelo caminho a minha Mãe disse-me que íamos a uma escola, a escola que eu frequentaria nos tempos seguintes.

A meia dúzia de metros da dita escola, fomos abordadas por dois senhores de fato e chapéu. Começaram a falar com a minha Mãe, trocaram umas folhas de papel azul e estiveram à conversa com ela uns dez minutos.

No final, despediram-se dela com um aperto de mão, agradeceram-lhe, não sei bem o quê e continuamos caminho.

Na escola, as carteiras estavam arrumadas, havia um grupo de senhores atrás de umas mesas e ao centro de uma dessas mesas estava uma caixa, alta de madeira.

Fiquei tão deslumbrada como desiludida com a escola. Imaginei que ia ver uma sala de aulas com as carteiras todas alinhadas, o estrado, a secretária da professora, o quadro...

Não percebi muito bem o que a minha Mãe ali foi fazer. Demoramos pouco, dez minutos se tanto.

Voltamos para casa e estivemos as duas sozinhas: almoçamos, passamos a tarde a ver televisão, jantamos. Não vi o meu Pai naquele dia. Quando ele chegou, já eu dormia.

Foi um Domingo estranho, aquele.

Mais tarde fiquei a saber que aquele Domingo era um Domingo de eleições, que a minha Mãe tinha ido votar, que aqueles senhores eram da PIDE e que queriam confirmar que ela podia votar...

Nunca soube onde esteve o meu Pai naquele dia...


1 comentário:

Ricardo disse...

Gostei muito desta história parabéns.

Fala de ralidades que aconteceram a trinta e cinco anos atrás, a época da pobreza extrema, o controlo das pessoas, prisões de inocentes e o medo.

O respeito que tanto as pessoas dessa époco apreciam é o respeito do medo, não faziam nada simplesmente por medo que poderiam ir para a guerra ou presos.

Onde é que viver oprimido é viver? Onde é que morrer á fome é viver?

E hoje ainda ouvimos dizer que no tempo de Salazar vivíamos bem.

Então gostava de saber onde é que viviamos bem nesse tempo?