quinta-feira, 19 de março de 2009

O Pai Mãe

Teria eu uns quatro, cinco anos, quando conheci um menino que jamais esquecerei.
Era um menino da minha idade, moreno gorducho e muito caladinho. Ele ensinou-me que as mães não eram imortais. Ele não tinha Mãe! Ele ao quatro anos não tinha mãe.

Quando o conheci tinha acabado de sair da minha concha. A minha Mãe tinha retornado à sua vida profissional e eu tive de ir para a ‘mestra’. Mestra era o termo dado ao que agora chamamos de ATL. Nessa altura as escolhas eram poucas. Ou ia para lá ou ia para a Lúmen, o único colégio das redondezas na altura.
Ao contrário do colégio, que era frequentado por crianças de uma determinada elite, a ‘Mestra’ tinha de tudo. E ainda bem, e ainda bem que fui para lá. Assim cedo pude ser confrontada com outras realidades, que em muitas linhas contribuíram na formação da minha personalidade!

O menino, era o pai quem o levava lá todos os dias, um homem estranho, como eu nunca tinha visto, e mesmo todos estes anos depois, não tenho imagem de ter visto outro que se lhe assemelhasse. Usava umas botas sem cordões e as calças seguras por um cinto muito velho! Era muito moreno caminhava curvado e flectia muito os joelhos! Nos dias de chuva, levava o guarda-chuva pendurado na parte de trás da gola da camisola. Por muito frio que estivesse, nunca usava casaco, mas sim muitas camisolas, umas por cima das outras! Um homem rude, mas que não descurava as suas obrigações de Pai e Mãe, só que da forma que ele sabia.
O menino, esse também não tinha casacos, só camisolas, muitas à segunda feira e poucas à sexta.
Ouvi mais tarde a D. Guilhermina, a Mestra, comentar com a minha Mãe, que o pai dava-lhe banho ao Domingo, vestia-lhe as camisolas lavadas e todos os dias lhe tirava a de cima, a sua!


Agora à distância, apercebo-me que era um menino triste e que se mantinha e os outros o mantinham, um pouco à parte. Na altura, eu só o achava calado e pensava, que ele é quem não queria brincar. Para mim era mais um menino como os outros. Claro que não foi preciso muito tempo para perceber que não somos todos iguais aos olhos de algumas pessoas. E no caso das crianças é ainda mais flagrante, pois basta haver um líder a fazer campanha contra alguém para esse ‘alguém’ ser marginalizado.

Na mestra havia mesas de madeira com bancos corridos, onde nos sentávamos para estudar, brincar e lanchar, conforme as idades e os horários. Normalmente, enquanto lanchávamos, sentávamos-nos nesses bancos de costas para a mesa a ver as outras crianças a brincarem.
Gostei do menino. Já nessa altura sentia-me atraída por pessoas diferentes, mesmo sem saber que as havia!
Um dia, à hora do lanche, estávamos nós os dois sentados num banco, perguntei-lho o nome da Mãe dele. Respondeu-me que não tinha Mãe. Que a Mãe dele tinha ido para o Céu.
Respondi-lhe que não era possível, toda a gente tinha mãe… até os adultos!
Ele disse-me que não era assim, que ele não tinha Mãe, que a dele tinha ido para o Céu e ele tinha ficado sozinho com o pai.

Calei-me e comecei a olhar para ele de uma forma diferente, como que à procura de das diferenças. Mentiria ele?! Como era possível não ter mãe? Toda a gente tem mãe… as mães não morrem, pensava eu! Até o meu pai e a minha Mãe tinham mãe!

Não me lembro de mais nada da conversa desse dia, só de, pela primeira vez na vida, ter a sensação de perda, que poderia perder a minha Mãe!

A tarde custou mais a passar, tal era a ânsia de ver a minha Mãe. Lembro-me de quando a vi, ter tido medo. Medo de a perder… pela primeira vez!

3 comentários:

RA disse...

Muito interessante! Gostei do seu blogue! Vou voltar!

Reflexos disse...

Obrigada RA.
Será sempre bem vindo.

Ricardo disse...

Reflexos ao ler esta história real vi algumas afinidades comigo, pois quando somos diferentes da sociedade mais desprezados ficamos pelos os outros, principalmente as crianças.

Essa história chocou-me imenso, mas acredite que às vezes temos de passar por coisas para percebemos os outros que são diferentes ou iguais a nós.

Na verdade somos todos iguais mas também diferentes, infelizmente ou felizmente não sei, mas sei que as crianças pagam muita coisa que não têm culpa.

Um grande beijinho para si e obrigado por ter partilhado essa história real e de encantar.