quarta-feira, 11 de março de 2009

Os 50 Anos da Sãozinha

A Sãozinha, quando andava no liceu, ficou grávida. Escândalo! Como amenizar o escândalo? Casá-los! E se eles não querem? Não faz mal! Rapariga solteira com um filho é que não!
Mas são duas crianças! A
Sãozinha ainda anda na escola e o rapaz não tem trabalho!
Não faz mal, ele vai trabalhar e ela vem para casa cuidar da criança!
Mas não têm casa! Não faz mal, vai para casa da família do rapaz. A casa é grande!

A
Sãozinha só tinha dezoito anos quando tudo isto aconteceu. A Sãozinha, que até era rapariga inteligente podia ter ido longe nos estudos!
A
Sãozinha que vivia com os pais e o irmão mais velho sete anos, teve de deixar a casa dos pais.
A
Sãozinha de um momento para o outro viu-se afastada dos Pais, dos irmãos, dos amigos; a viver com estranhos, e com um estranho e... com um filho no ventre.

A Sãozinha era agora uma mulher casada, a viver na casa dos sogros.A Sãozinha tinha um filho no ventre e vivia na casa dos sogros.A Sãozinha tinha-se feito mulher de um dia para o outro!Era frágil, estava ainda frágil, quando recebeu a notícia de que o Pai tinha tido um enfarte e tinha morrido!
Foi a 'machadada final' para a
Sãozinha. O Pai era o seu pilar. O Pai era quem a compreendia. O Pai era quem a mimava. O Pai era quem levava a Sãozinha ao Sábado de manhã à cidade e a presenteava com as últimas novidades da moda. Era ele quem a defendia das ‘invejas’ das irmãs, agora casadas e mães de filhos... e a defendia das perseguições do irmão mais velho sete anos, com síndrome de irmão protector...

Agora a
Sãozinha não tinha Pai e tinha um filho no ventre. E as duas pessoas que ela mais amava não se iam conhecer!
Estava só. Todos lhe apontaram o dedo. O Pai tinha morrido de desgosto, diziam os mais velhos da família... era uma vergonha, uma rapariga de família casar grávida!

A mãe nada podia fazer. Estava frágil também e
era mulher. Num meio como aquele, ser mulher é ser filho de um Deus menor. O irmão estudava agora no Porto... para ser engenheiro.
A
Sãozinha também queria ter estudado, ‘se tivesse cabeça’, diziam os irmãos. Agora era tarde.Era casada, o marido trabalhava nas obras e ela tinha de ficar em casa a cuidar da criança e a ajudar as mulheres da casa nas lides do campo e da casa.
A criança nasceu, a
Sãozinha voltou a sorri. Tinha um belo rapagão. Cuidar dele não era tão difícil assim... tinha a ajuda do instinto maternal... era bom ser mãe.

A criança cresceu, começou a gatinhar, a andar. O marido a afastar-se dela e da criança. A chegar a casa bêbado. A
Sãozinha sofria. A Sãozinha foi procurar emprego. O tio, irmão do Pai, que viva na cidade, ajudou. Ela arranjou emprego numa fábrica. Era duro, mas ela tinha-se habituado à vida dura.
Levantava-se cedo, às 6 da manha. O filho ficava com a avó. O pai, esse mal o via. Chegava a casa, quando ia a casa,
bêbado, a altas horas da noite... o casamento tinha acabado. Não, nunca tinha havido casamento... só no papel, para calar a boca do povo de duas aldeias, a vida de duas pessoas foi decidida por elas e foi decidida pela infelicidade delas. Nenhum dos dois era feliz e, se a Sãozinha não tivesse cuidado, brevemente seriam três infelizes!

A
Sãozinha tinha crescido. Tinha crescido da pior maneira. E quando se cresce da pior maneira, fica-se a saber o que não se quer. E a Sãozinha sabia que não queria mais aquele casamento que nunca tinha querido. Sabia que não era ali que queria estar com o filho. Queria ir para longe, não muito, só para a sua aldeia, para junto da mãe.

Foram precisos quase dez anos, mas foi possível. Ao fim de dez anos de não casamento, de não marido, de não família. Só trabalho, só filho, a
Sãozinha fugiu. Fugiu para casa da mãe. A Sãozinha juntou dinheiro, a Sãozinha pediu dinheiro e a Sãozinha, num terreno junto à casa da Mãe, herança do pai, começou a construir às escondidas, uma casinha. Ninguém sabia, ninguém podia saber. Antes disso tinha de conseguir o divórcio. A Sãozinha passou necessidades. Tinha de pagar a casa, tinha de sustentar o filho. Ele tinha de poder estudar enquanto pudesse!
Mais um
escândalo! A Sãozinha divorciou-se! Agora era uma mulher divorciada! O ex marido casou-se. A Sãozinha não. Vivia para o filho, para a casa e do trabalho. O dinheiro nem sempre chegava para tudo. A mãe também, agora viúva, pouco podia ajudar. A Sãozinha era agora apontada como a divorciada e pela família ainda, como a responsável pela morte do Pai!

Entrou em depressão. O desempenho no trabalho começou a ser mau. O chefe zangou-
se, mas compreendeu e ofereceu ajuda. Levou-a ao médico.

A
Sãozinha entrou numa nova era da sua vida. Agora que começava a melhorar de dinheiros, estava doente. Tina uma depressão. Tinha de tomar anti-depressivos. Eram caros, mas tinha de os tomar! E tomou-os, até o médico dizer basta.
Quando já chegava, o filho disse que não queria estudar mais, que queria ir para Espanha trabalhar.
A Sãozinha aceitou, não entrou em depressão... apoiou.... arranjou um namorado... secreto... A Sãozinha era agora outra mulher. Uma mulher forte e decidida. Era dona da sua vida e começava a ter uma boa vida. Não a que teria se não tivesse engravidado, mas o que interessava isso? Não tinha o que mais amava no mundo: o filho!

Ela e a mãe tornaram-se grandes amigas, como nunca haviam sido, afinal ela era a menina do papá, o que gerava algumas barreiras entre elas! Eram cúmplices, agora.
Só se tinham uma à outra, agora que o filho estava em Espanha e o namorado na casa dele, como a
Sãozinha queria. Casamento não, nunca mais, dizia Sãozinha.

O
filho voltou de Espanha. Estava na idade de ir para a tropa. Foi para Lisboa. Quando acabar a tropa volto para Espanha, dizia ele. Não foi. A tropa muda um homem, não é o que todos dizem? Pois o filho mudou de ideias. Voltou para a aldeia. Foi trabalhar para as obras. Nem a tropa o fez querer voltar aos estudos. A Sãozinha não se incomodou com isso. ‘Todas as profissões são precisas’, dizia ela.

O filho arranjou uma
namorada. O filho arranjou muitas namoradas. O filho todas as semanas tinha uma namorada. Um dia o filho chegou a casa e perguntou se não podia mudar-se para o quarto maior da casa. A Sãozinha disse que sim. O filho perguntou se não podia comprar uma mobília nova para o quarto. A Sãozinha disse que sim. A Sãozinha disse-lhe também que ele tivesse em atenção o espaço para o berço.

O filho ficou a olhar para ela. Ela para ele e ele disse que ela tinha razão e pediu-lhe para o ajudar a organizar o casamento...

Ela ajudou, mas só ajudou. Todas as decisões ficaram com ele. Ele convidou o pai.
Perguntou à Sãozinha se podia. Ela disse que não era uma questão de poder... era de ele querer ou não... ele não sabia se queria, mas convidou depois de a Sãozinha lhe dizer que ‘nos arrependemos mais depressa do que não fazemos do que do que fazemos’!

Ele fez e não se arrependeu. Conheceu os irmãos que tinha,
fruto da nova família do pai.

Foram viver para casa da
Sãozinha. Foi difícil para a Sãozinha. Habituara-se à solidão, a estar com ela própria... a mãe vivia na casa ao lado.

Acarinhou a nora, ensinou-lhe o que ela aprendera sozinha, o que devia ter, o que nunca ninguém lhe ensinara a ela. Tomou conta do
neto, tomou conta da nora... afinal era uma criança e não queria que ela crescesse à pressa como ela teve de crescer....

Os quatro eram felizes. Eram uma família. A mãe vivia na casa do lado. A
Sãozinha era agora o pilar da família. De menina frágil, passou a mulher independente e a pilar de quatro gerações: a Mãe sempre lhe vinha pedir ajuda e conselhos. O Filho e a Nora ajuda e conselhos lhe pediam, e agora tinha o neto que não pedia nada, mas a quem ela dava incondicionalmente carinho, muito carinho, tal como dera ao filho. Sim, isso ela pôde e deu ao filho… isso ela fez bem, muito bem.
Mais um golpe na vida da Sãozinha. A Mãe ficou doente. A Mãe teve um AVC. A Mãe está presa, ora a uma cama de um lar, ora a uma cama de hospital, quando piora.

A
Sãozinha fez 50 anos. A Sãozinha é uma mulher bonita, alegre e boa. Acima de tudo é uma boa pessoa.

A
Sãozinha não se incomodou por fazer 50 anos. A Sãozinhaestava triste quando fez 50 anos porque a Mãe está doente.

Fazer 50 anos é bom, disse ela.
Ela é uma mulher digna do orgulho das mulheres. Ela é uma vencedora.
Obrigada
Sãozinha por seres assim.

2 comentários:

Ricardo disse...

Bom gostei imenso desta história e deste grande ensinamento de vida, sem dúvida alguma que há grandes mulheres.

No inicio pensava que fosse uma história de encantar, mas no entando, é uma história real.

Admiro estas pessoas que lutam uma vida inteira para construir um futuro feliz.

Muitos parabéns Reflexos por publicar grandes exemplos de pessoas nascidas em Portugal, nem tudo é mau temos muitas coisas boas no nosso Portugal.

Reflexos disse...

Olá Ricardo,

Realmente não é uma história de encantar, mas que encanta...

Obrigada pelas suas palavras sempre simpáticas

Beijinhos
Reflexos