quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Não Existe Idade Para Descobrirmos a Nossa Vocação



Tinha acabado de se sentar à mesa, estava a colocar o guardanapo no regaço, quando tocou o telemóvel.
Ficou nervosa. A primeira coisa que lhe veio à memória foi Pedro. Será que aquele anormal tinha decidido massacrá-la mais um bocado?! Não foi suficiente?
Bom, massacrar, bastou ele ter aparecido, foi sempre esta a sua arma para a inquietar, a sua presença, o seu olhar… inquietava-a o olhar dele, aquele olhar fixo a tentar trespassar os olhos dela na tentativa de chegar aos seus pensamentos….
-Ah, é a Luísa! -disse aliviada, depois de chegar ao telefone e ver no visor o nome 'Luísa' a piscar.- Que quer ela a esta hora!?
-Olá Lu, então, tudo bem contigo? A sério? Quando? Claro, lá estarei. Por nada deste mundo eu faltaria à tua exposição! Cada vez tenho mais orgulho em ti, irmã!
Luísa era uma das suas melhores e mais antigas amigas. Tinham-se conhecido no liceu, e desde aí uma sólida amizade se tinha criado entre elas. Costumavam dizer que eram irmãs dadas pela vida. 'Assim como há a família de sangue e a família que a vida nos dá, também há os irmãos de sangue e dados pela vida'- era o que se ouvia da boca delas para mostrar o quanto era forte aquela amizade…
Finalmente uma boa notícia: A primeira exposição individual de Luísa. Luísa era a prova de que 'há males que vêm por bem'.
Sentou-se à mesa e enquanto retomava a refeição começou a pensar no turbilhão que foi a vida de Luísa… e a dela nos últimos meses.
Um dia estava ela, precisamente a sentar-se para jantar quando o telefone tocou. Tal como hoje, era Luísa do outro lado da linha, mas num estado tal que Madalena não conseguia perceber o que ela dizia:
-Olá Lu, então… calma, que se passa? Tem calma, diz-me o que se passa. Luuuísa, calma, não te percebo! Onde estás? Que se passa?
Madalena não estava a perceber o que Luísa dizia. A única coisa que lhe estava a conseguir passar era o nervosismo. Estavam agora as duas nervosas. Não estava a conseguir controlar a situação…
-Lu, tem calma, diz-me onde estás, eu vou ter contigo!
Conseguiu perceber que Luísa estava em casa, sozinha e, sem hesitar:
-Eu vou já para aí. Tem calma, é só calçar-me e vestir um casaco.
Correu para o armário da entrada, calçou uns ténis, sapatos e vestiu um casacão. Que figura: de fato de seda, ténis e casacão…linda!
Pegou na carteira, apanhou a chave do carro de cima da mesa da entrada e saiu a correr, enquanto dizia a Rafael o que se passava.
Quando chegou a casa de Luísa, foi recebida por uma Luísa 'em trapos'.
Abraçaram-se as duas, enquanto Luísa dizia em soluços: 'Que vai ser da minha vida?!'
Madalena afastou-a de si, segurou-a nos braços e perguntou:
-Amiga, afinal o que se passa?
-Perdi o emprego!
-Ufa, é só isso?
-Só isso, Madalena? Só isso? Eu não tenho outro meio de subsistência, Eu não tenho marido, eu não tenho pais, eu não tenho irmãos, eu não tenho… ninguém, só a mim!
-Isso não é verdade! Tens-me a mim e, perder o emprego não é o fim do mundo! Estava com medo que fosse outra coisa, uma doença, que tivesses tido um acidente, sei lá… tudo menos isso!
Depois de se acalmar, Luísa conseguiu explicar a Madalena que a empresa onde trabalhava ia fechar e que por isso o desemprego era inevitável!
Luísa ficou desempregada dois meses depois deste episódio. A procura de emprego foi dramática e inglória. Era ver os dias passar, e nada. As entidades para onde mandava curriculos ou não a chamavam, ou se a chamavam, a abordagem não passava da primeira entrevista.
O subsidio de desemprego não durava para sempre e neste momento a sua vida não passava de uns trabalhos pontuais de traduções que fazia esporadicamente para a empresa onde trabalhava Madalena. Evitava ao máximo pensar no dia em que o subsídio acabasse. Decidira viver um dia de cada vez…e da melhor maneira, que era com boa disposição!
Um dia, regressava ela a casa, de mais uma entrevista, numa daquelas fases em que as palavras das entidades já eram 'musica para os seus ouvidos'. Ao passar por uma loja de artigos de pintura, reparou que a loja estava com promoções. Parou, entrou e comprou um 'kit para principiante', era assim que dizia na embalagem.
A única vez que tinha pegado num pincel fora na escola nas aulas, que no seu tempo se chamavam de EVT!
Abriu o kit, leu as instruções, tinha instruções, vestiu uma bata velha. Quando vestiu a bata sentiu um arrepio… a bata era da empresa para onde ela trabalhara tantos anos e tanto dela dera… como prémio tinha aquela bata e uma depressão à porta!
E foi mágico aquele momento, há muito que já não fazia algo que a absorvesse tanto. Pintou, misturou tintas, combinou cores…
O passo seguinte foi inscrever-se num curso de pintura. Tinha sido uma decisão muito bem pensada: gastar dinheiro num curso de pintura numa situação de desempregada poderia ser loucura, mas não, Madalena, mais uma vez Madalena, ajudou-a a decidir quando lhe perguntou:' O que preferes, gastar o dinheiro no curso, ou mais tarde no psiquiatra?'
Este 'encostar à parede' foi decisivo, inscreveu-se no curso. Teve bons resultados, parecia que tinha nascido a pintar! A sua criatividade, o seu traço, eram elogiados por todos, os entendidos e os outros!
Um dia, um dos monitores do curso, abordou-a e perguntou-lhe se ela estava interessada em participar numa exposição colectiva. Tinham proposto à escola que levasse três alunos e ela tinha sido escolhida. Se aceitasse, e se quisesse e houvesse interessados, poderia fazê-lo.
Aceitou o desafio e ainda bem! Os seus quadros foram aplaudidos pela critica e a seu talento foi notícia no meio. Foi convidada para programas de televisão e foi noticiada como a revelação do anos.
A sua dedicação à pintura era cada vez maior e a sua técnica apurava-se de dia para dia. O seu mestre, como ela chamava agora ao monitor do curso, via nela grande talento e resolveu apostar nela e com a sua supervisão propôs-lhe uma exposição individual na galeria de que era sócio.
-Estou assustada!-disse ela, quando deu a notícia a Madalena- tudo aconteceu tão depressa que ainda não acredito! Se isto é um sonho, não quero acordar, nunca!
Não tinha nenhum sonho de que acordar. Era verdade. A sua exposição era uma realidade e Luísa está a meia dúzia de horas de inaugurar uma exposição de pintura individual!
Era notícia em jornais e TV: 'Não existe idade para descobrirmos a nossa vocação', diziam eles!
Nota: a foto é de uma obra de Maluda, uma das minhas pintoras preferidas, que a proveito para homenagear aqui. Faz no próximo dia 10 de Fevereiro, 10 anos que faleceu.


1 comentário:

Ricardo disse...

Muitos parabéns por esta história, veio a calhar bem, pois com a situação de desemprego que esta acontecer, com esta história, dá uma nova esperança às pessoas que neste momento vivem nessa situação.

O importante é gostar de sonhar e de ir em frente naquilo que as pesoas mais gostam de fazer.

Mais uma vez muitos parabéns.