domingo, 21 de dezembro de 2008

A Mensagem

Que dia!
Pedro tinha passado o dia com a Avó e a prima Rafaela, com os preparativos de Natal.
Ir ao sótão buscar as coisa, limpar o pó, ir ao monte com o Pai buscar musgo, sim porque, como dizia o Pai, Presépio, que é Presépio tem que ter musgo natural!

Estava mesmo exausto! Tinha sido uma verdadeira aventura, até porque, apesar dos seus dez anos, nunca tinha visto nem uma árvore de Natal, nem um Presépio na casa da Avó!

A mãe explicara-lhe que desde a morte da tia Gertrudes, a Avó nunca mais tinha tido disposição para as decorações de Natal!
A tia Gertrudes era a irmã mais nova da Avó, que sempre vivera com ela. Mesmo quando a Avó casou, ela foi viver com ela. Acompanhou a Avó em todos os momentos, bons e maus: o casamento dos avós, o nascimento do Pai, de quem era madrinha, o nascimento dos tios e … na doença do Avô que o prendeu a uma cama durante quase cinco anos!

Num dia de Dezembro, há precisamente onze anos, vésperas de Natal, estava a tia Gertrudes sentada no seu cadeirão junto à lareira, quando foi atacada por uma forte dor de cabeça. A Avó só a ouviu gritar e, quando a encontrou já estava desmaiada! Deste estado nunca mais recuperou, foi para o hospital, onde ficou em coma, vindo a falecer duas semanas mais tarde!

Naquele ano não houve Natal naquela casa. Ainda para mais, a tia Gertrudes era a alma do Natal naquela casa: era ela quem preparava a árvore, o presépio e, na Noite de Natal, quando o pai e os tios eram pequenos, era ela quem distraía a miudagem, para que a Avó pudesse colocar os presentes na lareira! Sim, porque naquela época quem trazia os presentes era o 'Menino Jesus' e tinha-se que pôr o sapatinho na lareira!

No ano seguinte, com o nascimento de Pedro, as tensões ficaram um bocado mais aliviadas. A atenção e os cuidados que se tem de dispensar a uma criança de meses desvia os pensamentos das coisas más...

Mesmo assim naquele ano não houve decoração de Natal. No ano seguinte, quando Pedro já dava uns passos e nasceu Rafaela, também não… só mesmo agora, uma década depois e só mesmo Pedro e Rafaela para convencerem a Avó!

'Agora sim, ao fim de mais de dez anos, há Natal!', comentou o tio Alfredo, ao chegar a casa e deparar-se com toda a azafama à volta da árvore e do Presépio!

Quando foi ao sótão buscar as coisas de Natal, encontrou um baú cheio de livros, livros antigos, que tinham sido dos avós, do pai e dos tios. Um deles chamou-lhe particularmente a atenção: 'Fantasmas de Natal'

Com o consentimento da Avó, levou o livro para baixo e guardou-o no quarto para o ler mais tarde... 'Logo, antes de adormecer,vou lê-lo'- pensou.

Assim foi, estava para se deitar e ao passar junto à cómoda pegou no livro e colocou-o em cima da mesinha de cabeceira. Enfiou-se na cama, apagou a luz do tecto e acendeu a da mesinha. Colocou mais uma almofada nas costas para ficar mais confortável, puxou a roupa da cama um pouco para cima, para não apanhar frio, e pegou no livro.

Era um livro muito antigo. Tinha ar de ter sido lido muitas vezes... A capa era de couro e a lombada de tecido verde escuro, que começara a assemelhar-se a preto de tanto pó que tinha.

Na lombada e na capa tinha escrito a ouro :'Fantasmas de Natal'. O nome do autor, pouco visível estava só na capa. Numa tentativa de o perceber, Pedro passou a mão por cima dele e, no momento em que esfrega a capa, um vulto luminoso sai do seu interior, a movimentar-se como se fosse uma nuvem de...luz.

Pedro, assustado, arregalou os olhos, fincou as costas na cabeceira da cama e abriu a boca para gritar... mas o grito não saiu! O susto deixou-o sem voz! A sombra, dirigiu-se para os pés da cama, sentou-se e sorriu-lhe. Não tinha braços, não tinha cabelo... só olhos e boca e...era branco, luminoso...era um fantasma! Ele tinha na frente dele um fantasma e não conseguia gritar e não tinha por onde fugir! Continuava sem conseguir gritar.Gritar! Nem pestanejar conseguia, quanto mais gritar! Tinha um Fantasma no quarto! Um Fantasma!

O Fantasma sorriu-lhe e disse-lhe: 'Olá, Pedro'- 'O Fantasma fala! O Fantasma sabe o meu nome!' -Pensou Pedro, encostando-se ainda mais, como se fosse possível, à cabeceira da cama e arregalando ainda mais os olhos. 'Não tenhas medo'.-contimuou.-'Eu não te vou fazer mal, eu sou o Fantas.

Finalmente Pedro conseguiu pestanejar e articular: 'Como sabes o meu nome?!

-Eu sei tudo, respondeu Fantas.

-Mas como?

- Eu já vivo nesta casa há muitos séculos. Era amigo do teu avô, do teu pai e dos teus tios e agora estava à tua espera...

-À minha espera para quê!?-perguntou Pedro, agora mais calmo...

-Para te contar histórias, histórias fantásticas de Natal. Histórias de meninos do mundo inteiro, que tem Natais diferentes do teu.

-Mas para que quero eu saber isso?-perguntou-lhe Pedro, agora ligeiramente irritado.

-Para saberes que há outras realidades, que há um Mundo para além do teu. Que há meninos que não tem prendas no Natal, porque não têm dinheiro e que há meninos que têm tudo e não sabem dar valor a nada. A minha missão nesta família é a de ensinar as crianças da família a dar o devido valor ao que têm, quer seja pouco, quer seja muito. A nunca valorizarem mais o que não têm, menosprezando o que têm, quando, por muito pouco que seja, há sempre alguém que ainda tem muito menos e suspira pelo vosso pouco!

-Também vais contar essas histórias à Rafa?

-Sim, vou. Tu vais ter a missão de passar a livro para a tua prima para que ela possa ouvir, também, as minhas histórias!

-E quando me vais contar essas histórias?

-Sempre que quiseres. Basta pegares no livro, passar a mão sobre o título e eu apareço para te contar uma história...

-E não me vais fazer mal?

-Claro que não! Pelo contrário, só bem. Vou ensinar-te a dar valor ao que tens e a quem és!

-Pedro, filho, deita-te. Estás aí todo torcido- Era a Mãe, que viera ver como ele estava e tentava fazer com que ele se deitasse direito na cama, ao mesmo tempo que lhe tirava uma das almofadas das costas.

-Mãe, és tu?

-Claro que sou eu, quem querias que fosse? Está aí todo torcido, enfiado nas almofadas agarrado ao livro. Estás tão cansado que nem o abriste! Dorme. Amanhã lês o livro...

Enquanto a mãe lhe tirava o livro das mão, Pedro perguntou:

-Mãe, é verdade que há meninos que não têm prendas no Natal?

-Há sim, Pedro, há meninos que não têm prendas no Natal, mas agora dorme...

-Mas Mãe, então não têm Natal!

-Pois não filho, não têm Natal...agora dorme, que é tarde...

-Mãe...

A Mãe já tinha saído do quarto...

Pedro aconchegou a roupa e com as palavras de Fantas a martelar-lhe na mente adormeceu:

...há meninos que não têm nada, há meninos que não têm nada...


História escrita para a Fábrica de Histórias

Nota: Este post foi 'assombrado' por algo inexplicável que pôs o texto às cores e eu não consigo corrigir...


1 comentário:

Ricardo disse...

Linda história, bela lição.
pois é verdade, hoje quase ninguém dá valor aquilo que têm seja pouco o seja muito.
Infelizmente essa história é a realidade em que vivemos umas com Natal e outras a não saber o que isso é.
Cada vez gosto mais das suas histórias, continue assim.
Muitos parabéns
com os melhores cumprimentos
Ricardo.